sábado, 16 de junho de 2018

Falta mudar essa cultura de misturar álcool e direção, diz capitão da PMRN

Capitão Isaac Paiva, coordenador da Lei Seca no Rio Grande do Norte
A Lei Seca completa, este ano, 10 anos de existência. Houve uma mudança de perfil daqueles que foram pegos nas autuações de dez anos para cá?

O perfil continua o mesmo: mais de 80% são homens, em sua maioria jovens, entre os 19 e os 30 anos de idade. O fato de muitos jovens serem autuados mostra que, na prática, ainda falta uma medida educativa que os acompanhe desde jovem para tentar modificar essa cultura que temos de misturar álcool e direção. Ao longo dos últimos dez anos de aplicação da Lei, ela foi ficando cada vez mais rígida. No entanto, o número de autuações tem crescido, e isso nos preocupa, porque quer dizer que a rigidez da legislação não está sendo suficiente para impedir que as pessoas realizem essa prática. É um cenário contraditório, principalmente levando em consideração que nunca tivemos tantos meios de locomoção como hoje. Há diversas alternativas como aplicativos, uber, táxi... Mas as pessoas insistem em continuar bebendo e dirigindo.

Quando a Lei foi criada, em 2008, ainda não havia grupos de WhatsApp ou aplicativos que possibilitassem às pessoas alertar umas às outras sobre as blitz. Hoje, no entanto, a prática é comum. Isso tem atrapalhado as operações?

Infelizmente, sim. Apesar do ato de avisar em grupos e aplicativos sobre locais de blitz já ser um crime tipificado, as pessoas continuam fazendo, e muitas vezes é difícil rastrear a origem para punir os culpados. Nós pedimos para que as pessoas não compartilhem, porque prejudica bastante. As pessoas precisam entender que a Lei Seca foi criada para aumentar a segurança no trânsito. Há pesquisas que apontam que, na maior parte dos acidentes fatais em veículos, havia ao menos um motorista sob efeito de álcool. Não estamos lidando com algo pouco provável, ou com uma exceção: quando você bebe e dirige, a probabilidade de você se envolver em um acidente é muito maior. Seus reflexos estão mais lentos, sua visão fica comprometida. Aliás, sua capacidade cognitiva fica tão comprometida que, muitas vezes, as pessoas que estão verdadeiramente embriagadas recebem o alerta de que estamos fazendo uma operação da Lei Seca em determinada via em um aplicativo e, mesmo com o aviso, não consegue processar a informação e segue por aquele mesmo caminho, sendo pega na fiscalização.

É possível se recusar a fazer o teste do bafômetro?

Sim, é possível. A recusa é prevista no Código de Trânsito, no entanto, o motorista que se recusar ainda vai sofrer as penalidades imputadas àqueles que fizeram o teste. Ele terá sua carteira de motorista apreendida, vai ter que pagar a multa de quase três mil reais e será notificado. O que acontece, na verdade, é que ele provavelmente não será preso. Se o motorista estiver com uma concentração acima de 0,3 miligramas de álcool no sangue, ele vai ser preso. Muitas pessoas, por saberem que estão com um índice maior, se recusam a fazer o teste para escapar da prisão. Vale salientar, no entanto, que se a fiscalização constatar que a pessoa realmente está sem qualquer condição de dirigir, ou se está completamente embriagada, os agentes têm autoridade para efetuar a prisão. O procedimento é gravar um vídeo, mostrando o estado em que se encontra o condutor, e realizar a autuação. Ao longo do tempo, as pessoas vão buscando diversas maneiras de “burlar” a Lei Seca. Mas o fato é que ao tentar burlar a Lei, elas estão colocando todos ao seu redor em risco, não apenas elas mesmas. E mesmo que elas encontrem novos métodos, sejam os aplicativos ou a negação de fazer o teste do bafômetro, novos métodos de fiscalização também vão surgir.

Tribuna do Norte

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